Americanah [Chimamanda Ngozi Adichie]

Uau.

Do site da Cia das Letras:

“Lagos, anos 1990. Enquanto Ifemelu e Obinze vivem o idílio do primeiro amor, a Nigéria enfrenta tempos sombrios sob um governo militar. Em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo que se destaca no meio acadêmico, ela depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra.
Quinze anos mais tarde, Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos, mas o tempo e o sucesso não atenuaram o apego à sua terra natal, tampouco anularam sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.”

2016-01-06 12.43.15

“Por que as pessoas perguntavam ‘É sobre o quê?’, como se um romance só pudesse ser sobre uma coisa?”

Sabe aqueles livros que você termina de ler e pensa “meh, ok”, mas o livro continua na sua cabeça, você não consegue parar de pensar nele, cada vez que pensa vê outros detalhes e em dois, três dias já está achando absolutamente genial? Então. Americanah.

Quando terminei o livro uma coisa ficou bem clara: são na verdade dois livros. Um da Ifemelu na Nigéria, antes e depois de viver nos Estados Unidos. Esse livro fala sobre crescer em Lagos, ver seus amigos indo para e idolatrando o exterior, viver no meio de uma classe média e alta nigeriana e o que isso tudo significa pra ela, mas principalmente a relação de Ifemelu e Obinze. Esse foi o livro que eu gostei mais, quando terminei a leitura.

O outro livro é a Ifem nos EUA, de onde surgem os trechos do blog que bem verdade são ensaios sobre diversos aspectos da questão de raça nos EUA, é a Ifem crítica mas, principalmente no começo, confusa. Onde ela questiona tudo que está acontecendo, todas as maneiras estranhas como os estadunidenses classificam posição social num piscar de olhos. Eu amei muitas das críticas nessa parte do livro (admito que não sou a maior fã dos US and A e meio que me admiro de como é que eles não se explodiram até hoje). Mas lá pro meio da história, eu comecei a enjoar um pouco. Eu via mais um pedaço do blog e pensava “ai, de novo?”. Eu queria saber logo o que aconteceria com ela de volta a Lagos. Eu admito que meio que rolei os olhos pra esse livro num primeiro momento.

Mas sabe o que eu tenho pensado? No quanto a Chimamanda foi genial em fazer isso exatamente do jeitinho que ela fez.

Porque eu tenho que admitir que as personagens principais são negras e negros, nigerianos e estadunidenses e de outros países da África, mas a Chimamanda também fala de mim nesse livro. Sabe quem eu sou? O amigo branco liberal que se interessa mas vê tudo de fora, que até tem boas intenções mas chega uma hora em que ele só quer perguntar “mas poxa, você tem que falar tanto de raça?”. Chega a ser engraçado pra mim admitir como eu me encaixei direitinho no personagem. Teve um momento do livro em que eu realmente pensei “olha, super entendo que isso é importante, mas deixa isso de lado um pouquinho e continua com a história caramba”. E aí é que está.

A Chimamanda não podia só continuar com a história.

Porque a Ifemelu nos livros é duas: é uma pessoa normal quando está na Nigéria, mas quando pisa nos Estados Unidos ela se vê pela primeira vez não como gente, mas como negra. E ser negra nos EUA traz todas as histórias e questionamentos feitos por ela. Ela não pode “só continuar com a história” porque aquele é um mundo que não permite que ela “só continue com a história”. É um mundo que toda hora disputa, contrasta, classifica e define quem ela é, e a vida dela passa a tentar ser entender e se posicionar nesse mundo. A vida dela passa a ser viver e pensar sobre raça todo o momento, então nada mais justo do que esse momento do livro refletir a vida da personagem.

Eu particularmente amei os momentos em que ela descobre que tem que ficar ofendida com uma coisa ou outra, mesmo que não saiba exatamente porque. E quanto mais eu penso no livro com essa visão da diferença entre “ser uma pessoa” e “ser uma pessoa negra”, mais ele faz sentido pra mim. Porque é óbvio que eu vou querer saber só a história. Na vida real, eu posso saber só da história. A Ifemelu não tem esse privilégio. E isso faz com que seja mais importante ainda que eu realmente leia a história dela – com tudo que ela envolve. Como é ser uma negra americanah, sem tirar nem pôr.

Americanah

Autora: Chimamanda Ngozi Adichie

Tradutora: Julia Romeu

Editora: Companhia das Letras

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