Um novo começo

Por um momento, é insuportável. Até que ela, enfim, abre os olhos.

Em volta, apenas a penumbra. Tão diferente, ela pensa, da luz insuportável que fazia seu corpo queimar até um momento atrás. Ela percebe seu corpo translúcido. A dor vai diminuindo, dissipando-se no nada à sua volta. Niege está morta.

– AAAAAAAHHHHHHHHH!!!!

– Ei, ei, ei. – vozes respondem ao grito ensurdecedor

– Mais uma escandalosa – diz uma voz esganiçada

– Odeio quando eles gritam – diz outra voz sem rosto

– Como se fosse adiantar alguma coisa.

Niege arregala os olhos. A surpresa cala sua boca, mas não faz o ódio sumir de seu rosto. Ela estende os braços etéreos, tateando em vão a escuridão. Nada. Risadas sem rosto a engolem.

– Ah ha ha ha ha!

– Hi hi hi hi hi!

– Har har har har!

Seus olhos se fecham. Ela vê gravados em sua mente o rosto daqueles que a torturaram, buscando uma confissão de bruxaria. Ela ouve os gritos de sua irmã enquanto a levam para a estaca no centro da praça. Vê, em seus últimos instantes, o olhar de cobiça e prazer do senhor daquelas terras, voltado para sua irmã mais nova que ela se esforçou tanto para proteger.

Niege estende os braços e entre suas mãos se materializa um pescoço. As vozes se calam.

– Não pode, não pode! – uma criatura raquítica de membros compridos e finos como galhos secos e pele com tons dançantes de vermelho se debate, e é como se todas as vozes tivessem formado um único corpo, retorcido e inquieto como elas próprias. – Você não pode ver a gente! Não pode tocar a gente! A gente não tem forma, a gente não tem corpo!

– Vão ter se continuarem a me irritar. Só pra eu poder bater.

– E você quer o que com isso? Já estão todos mortos desse lado mesmo. – A nova voz fala de perto, como se estivesse sussurrando no ouvido de Niege.

Ela se assusta e, aproveitando a distração, o amalgamado de vozes escorre entre os dedos de Niege e volta a rir, mas cada vez mais de longe, e os ecos vão morrendo até sobrar só o silêncio. Niege se vira, lentamente, procurando a voz que lhe falou. Na sua frente está um gigante de fogo. A boca aberta de Niege não consegue emitir nenhum som.

– Sabe – diz o espírito, transmutando-se em uma gigantesca serpente de fogo e rastejando em círculos ao redor de Niege – não é sempre que alguém chega aqui com sentimentos tão fortes. Por que tanto ódio, Niege?

Ela olha para o chão, num ataque de timidez que não sabe de onde veio. Mas sua voz não treme na resposta:

– Se você consegue saber meu nome e conhecer meu ódio, pode ver também o motivo dele existir.

A serpente se abaixa até estar cara a cara com Niege, olha com seus olhos de fogo para dentro da alta da mulher, e lhe pergunta:

– E por que você acha que merece voltar?

– Para proteger minha irmã.

– Ha! Ha! Ha! Mentira! Você acha que essa é a resposta certa, a resposta nobre. Mas é mentira.

Um arrepio percorre a espinha de Niege e ela abre a boca para protestar, mas não diz nada. Suas bochechas ficam vermelhas.

– Por… vingança? – Mas Niege sabe que essas palavras também não são verdadeiras no momento que saem de sua boca.

A serpente cresce, até formar uma parede imensa. Naquele momento só existe o fogo para Niege. Ela treme, sem conseguir se conter, e o espírito de fogo pergunta mais uma vez.

– Por que você acha que merece voltar, Niege?!

As mãos dela tremem. Seu rosto sofre pequenos espasmos enquanto ela tenta controlar suas emoções. É inútil. Quando Niege abre a boca novamente, o que se ouve é um grito.

– Porque eles tiraram a MINHA vida por culpa SUA, que deu a eles o poder de fazer isso!

A parede de fogo diminui, até chegar à altura de Niege. Então, com um clarão, a serpente se transforma mais uma vez. Uma aparência humana. Idêntica a Niege, sem tirar nem pôr.

– Ah, agora sim podemos conversar. – Os olhos de fogo são negros como carvão, e Niege não consegue desviar deles. Eles gritavam todas as dores daquelas queimadas injustamente. – Realmente, admito, as coisas andam meio desequilibradas. Mas eu precisava da ferramenta certa. Você parece adequada, finalmente. Não quero heroísmos. Quero apenas equilibrar as contas.

– Então… o que exatamente você está propondo?

– Você volta.

O espírito falava como se fosse a coisa mais fácil do mundo.

– Não é a mesma coisa, claro, depois de estar do lado de cá. – continuou ele – Esse lado da vida será sempre bem claro para você. A carne vai impor menos limites. Os sentidos serão mais eficientes. E você vai conseguir sentir e, até certo ponto, direcionar força vital. Isso cria muitas possibilidades… descubra-as com carinho.

– Parece bem… interessante. Parece ser o que eles tanto procuram. Uma bruxa.

– Uma bruxa.

As duas Nieges, a de espírito e a de fogo, sorriem. Não era possível dizer qual sorriso era de alegria, qual era de malícia. O fogo envolve o espírito. No meio da noite, ao lado de cinzas ainda quentes, um novo corpo ressurge. Dói. Por um momento, é insuportável. Até que ela, enfim, abre os olhos.

***

Conto escrito para o primeiro desafio do Escreva 2016

Anúncios

Quer comentar?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s