Sonho que se sonha só

15 de maio de 1996

Querido diário,

Tive o mesmo sonho hoje. O do homem no trem. A primeira vez foi só um sonho curioso, que me deixou uma impressão forte ao acordar. Quando ele se repetiu na noite seguinte achei coincidência. Na seguinte, fiquei preocupada. Agora… já faz uma semana. Já não sei o que pensar.

16/05/96

Relatos do dia:

Anabela anda meio esquisita. Ela sempre pulou da cama, agora toda manhã ela se enrosca nos lençóis, preguiçosa, parece a gata tricolor da vizinha quando se espreguiça. Estou começando a ficar preocupada, será alguma doença, alguma virose? Mas no resto do dia ela parece normal, só de manhãzinha eu sinto essa estranheza toda. Vai ver não é nada, e eu que estou imaginando demais.

18 de maio de 1996

Querido diário,

Hoje foi diferente. Bom, o sonho ainda era o mesmo. Mas eu sabia que era um sonho – pudera, dez dias sonhando a mesma coisa – e por isso dessa vez eu não só observava, eu também me mexia. Quer dizer, era como se o ponto de vista se mexesse, já que eu não estou realmente presente no sonho. Antes estava presa no teto, na porta da cabine à meia luz. Dessa vez eu flutuei. Pelo que entendi, meu espaço no sonho está limitado à cabine e ao homem. Eu via a paisagem rolar lá fora, as brumas, as árvores com folhas de todos os tons de laranja e amarelo, mas não conseguia sair. Olhava o trem passar ao lado de um rio, e na outra margem do rio pequenas casas antigas, mas ninguém olhando pelas janelas. Só ele. Tive receio de chegar perto, de encarar o homem de frente, e quando finalmente tomei coragem… a Clara veio me acordar.

18/05/96

Relatos do dia:

Bom, estou oficialmente preocupada. Hoje tive que acordar Anabela pro café da manhã, já que ela parecia que não ia levantar nunca, e ela quase pulou no meu pescoço! Isso é jeito de agradecer uma irmã preocupada? Tsc. Alguma coisa está errada.

23 de maio de 1996

Querido diário,

A paisagem já não me interessa. O barulho estranho, as cores, o rio… agora, a noite toda, somos só eu e o homem. Já decorei o rosto dele, sempre o mesmo, o queixo apoiado nas mãos e o olhar distante pela janela. Os olhos parecem perdidos e seus pensamentos devem correr tão rápido quanto a paisagem vista do trem, eu imagino. Olhos escuros que me fazem pensar em silêncios, noites, florestas e animais selvagens. Não consigo parar de pensar neles, mesmo durante o dia. Ando distraída, me pego pensando nele, ser sem nome, homem sem substância. É ridículo dizer isso, sei que é só um sonho, mas… acho que estou apaixonada.

25/05/96

Relatos do dia:

Ah! Essa é boa! Anabela acha que está apaixonada! A-pai-xo-na-da! Ela! Meu deus. Era só o que faltava. Tive que fuçar no diário dela pra descobrir o que estava acontecendo, e lá está: a tonta sonha com um homem e caiu de amorzinhos por ele. Olha… ela sempre foi meio lerda, mas agora ficou louca de vez. Anabela não consegue nem falar cara a cara com as pessoas! Imagina se papai descobre. A Belinha linda dele, o orgulho da casa que nunca quis sair escondido, que nunca se interessou por ninguém enquanto eu levava todas as broncas e castigos, achou um jeito de se apaixonar sem ele saber. Aquela, tão naturalmente perfeitinha puritana, que me fazia achar que eu era filha do diabo só de estar do lado dela. Então quer dizer que eu tive que ver papai destruir o negócio do pai do Marcelo, fazer eles saírem dessa ilha no fim do mundo só porque eu e ele estávamos namorando escondido, pra vir essa tonta e arrumar um namorado imaginário, assim, e passar os dias felizes e apaixonada? E eu não posso nem sair na praça pra falar com os meninos? Ah, não. Vou procurar a Velha. Anabela vai ver só.

27 de maio de 1996

Querido diário,

Hoje foi… horrível. Não sei o que aconteceu. O sonho foi diferente.

Estava tudo normal, eu e ele, eu olhando aquele rosto calmo com tempestades por trás dos olhos. E aí aconteceu uma coisa que nunca tinha acontecido antes. O barulho mudou, a velocidade foi diminuindo… e o trem começou a parar. Eu fiquei meio em pânico, sentia que meu espaço ainda estava limitado à cabine e eu não conseguia saber o que estava acontecendo. E o trem ficou lá parado por um tempo, o homem tirou a mão do queixo, se ajeitou na poltrona. Quando achei que ia tudo voltar ao normal e o trem ia partir de novo, a porta da cabine abriu. E quem passou pela porta, senão a idiota da Clara! Era como se fosse a Clara-adulta, mas eu sabia que era ela! Ela entrou, de salto alto, uma saia curta que ela jamais poderia usar aqui, meias finas e sobretudo preto, parecia uma executiva. Ela olhou pro homem, sorriu e disse “Oi. Esperei muito tempo pra conhecer você”. Aí ela… aquela… eu ainda não acredito. A Clara-sonho sentou no colo e começou a beijar o homem! E ele estava surpreso mas dava pra ver que estava feliz como se fosse isso que ele estava esperando todo esse tempo, todas essas noites e sonhos sentados na janela de um trem olhando pro nada, e era ela. Não eu. As mãos dele começaram a passear pelas costas dela, a apertar a carne por debaixo dos tecidos, e eu não podia sair da cabine. Não conseguia olhar pra outra coisa. Incapaz de acordar. Tive que ver tudo.

Quando acordei, finalmente, chorando, a Clara estava lá, na cama do outro lado do quarto, embolada com o lençol entre as pernas e aquele sorriso malicioso dela, naquela boca bonita e podre. Aí eu soube. Não sei como ela descobriu nem como fez o que fez, mas pelo rosto dela, ficou óbvio que ela sabia muito bem o que tinha acontecido. E que tinha gostado. Brigamos muito, eu gritei, xinguei, chorei. Ela gritou também. Quando minha mãe chegou no quarto, ela saiu correndo e batendo a porta e eu fiquei lá sozinha, nossa mãe preocupada e perdida, mas eu não conseguia nem contar pra ela o que tinha acontecido. O que falar, afinal?

Falar que eu nunca poderia ter nada enquanto Clara estivesse ao meu lado. Que ela nunca me deixaria ser ninguém, ter ninguém, amar ninguém. E que ela tinha aprendido isso com papai, e com você, mamãe, e com essa ilha maldita e todos vocês me prendem e me isolam. Nunca estive tão mal. Agora já é de tarde e parei de chorar, mas o peso dentro de mim é o mesmo. A única coisa que me alivia é que tomei uma decisão. Já sei o que vou fazer. Está tudo preparado para hoje à noite. Chega. Acabou.

28/05/96

Relatos do dia:

Depois da confusão de ontem, eu mal podia esperar pra fazer a mesma coisa hoje. Anabela brigou comigo e chorou até os olhos ficarem parecendo dois pires vermelhos, e eu nunca ouvi tantos xingamentos saírem daquela boquinha santa, mas no fim do dia ela estava praticamente normal. Meio distante, não me olhava, mas isso é bom. Aí ela aprende quem manda aqui. Antes de dormir coloquei de novo a mistura que a Velha me deu na bebida dela e na minha, pra eu entrar nos sonhos dela de novo. Estava até feliz com a ideia de encontrar o bonitão! Mas essa noite pra mim foi um grande nada, um breu negro. Quando acordei, Anabela não estava na cama. Parecia que ela nem tinha dormido lá aquela noite. Ninguém mais em casa a viu essa manhã, mas acho que ela deve ter saído pra chorar escondida em algum canto. É só o que a tonta sabe fazer, afinal. Tenho certeza que daqui a pouco ela volta.

18 de outubro de 2013

Querido diário,

Hoje lembrei da adolescência. Engraçado. Isso não acontece com muita frequência há muitos anos, desde aquele tempo em que eu tinha acabado de fugir de casa. Hoje em dia aquela época e aquela ilha não são nada além de vultos na memória. Nunca senti saudades. Mas hoje lembrei.

Aconteceu na viagem. Finalmente consegui tirar umas boas férias, passear tranquila, ficar longe de aviões. Ir de um lugar pro outro sem pressa. Quando estou de férias, sempre vou de trem.

O clima estava me dando um tipo de dejà-vu, e eu não entendia o motivo. O céu estava meio cinzento, a umidade de outubro colada nas folhas coloridas, uma névoa leve se insinuando, mas esse clima não tinha nada de parecido com o calor e azul da ilha da minha infância. Faltava alguma coisa pra fazer a conexão e isso me incomodava imensamente. Até que, enfim, meu trem chegou. Era um daqueles mais antigos, nada das super velocidades do ICE ou dos trens japoneses, com pequenas cabines fechadas. Ele estava praticamente vazio, e eu subi distraída, pronta pra pegar uma cabine qualquer, mas a pequena porta azul de correr foi como uma porta para o passado. Eu entendi a sensação conhecida do clima, o sentimento estranho que me acompanhava desde que eu tinha acordado de mais uma noite sem sonhos – depois da adolescência, nunca mais sonhei. Naquela cabine estava um homem cujas feições eu já havia decorado, muito tempo atrás. Dei um passo adiante. Fechei a porta. E disse:

“Oi. Esperei muito tempo pra conhecer você.”

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