A Amiga Genial [Elena Ferrante]

O hype mais justificado do mundo

Da Amazon:

“O primeiro [livro da Série Napolitana], A amiga genial, é narrado pela personagem Elena Greco e cobre da infância aos 16 anos. As meninas se conhecem em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950. Elena, a menina mais inteligente da turma, tem sua vida transformada quando a família do sapateiro Cerullo chega ao bairro e Raffaella, uma criança magra, mal comportada e selvagem, se torna o centro das atenções. Essa menina, tão diferente de Elena, exerce uma atração irresistível sobre ela.”

(meu deus que blurb imenso que esse livro tem, não vou copiar tudo não)

amigagenial.png

Foto de Mario Cattaneo

 

Olha, eu demorei um bocado pra começar a ler a Série Napolitana. Não foi por falta de aviso da Anica e da Taize de que a série era muito boa. Não foi falta de hype em tudo quanto é artigo sobre “melhores livros dos últimos anos” que eu lia. Na verdade acho que a demora até foi um pouco por causa disso tudo, eu estava desconfiando muito de toda essa falação. Mas a verdade é que a Anica quase sempre funciona comigo pra indicações, eu tinha lá o crédito no Audible (ando apaixonada por audiobooks) e, bom, vamos lá ver qual é a dessa misteriosa Elena Ferrante então.

E meus amigos, que livro.

Lenu e Lila são duas personagens fantásticas, vamos começar por aí. E não foram poucas as vezes em que eu quis entrar na história só pra poder dar um abraço em uma das duas. Ou um tapa. O foco da história é a relação delas desde a infância, contado pela Lenu. Mas logo no começo já dá pra ver que essa relação não foi sempre um mar de rosas, já que a Lenu começa a contar a história das duas exatamente como uma forma de vingança contra a Lila ter desaparecido sem deixar rastro. É meio que “ah, você quer fingir que nunca existiu? Então vou registrar sua existência toda”. Esse jogo de opostos entre as duas está sempre presente: a que quer esquecer e a que quer lembrar. A que pode estudar e a que não pode. A bonita e a feia. A que casou sem amar ninguém e a apaixonada que ficou solteira. E, pelo menos o que pareceu pra mim, uma sempre invejando o que a outra tinha, o que quer que isso fosse.

I liked to discover connections like that, especially if they concerned Lila. I traced lines between moments and events distant from one another, I established convergences and divergences. In that period it became a daily exercise: the better off I had been in Ischia, the worse off Lila had been in the desolation of the neighborhood; the more I had suffered upon leaving the island, the happier she had become. It was as if, because of an evil spell, the joy or sorrow of one required the sorrow or joy of the other; even our physical aspect, it seemed to me, shared in that swing.

E no meio disso tudo, um outro personagem: Nápoles. Mais especificamente, o bairro de Nápoles dos anos 50 onde as duas meninas crescem e do qual elas querem desesperadamente escapar. É um lugar saturado de violência, machismo, abuso, máfia, manda quem pode obedece quem tem juízo. Desde pequenas, quando estudam juntas no ensino básico, elas já tem planos mirabolantes de como vão, um dia, ser ricas e irem embora. Mas, conforme vão crescendo, a vida vai se impondo e criando uma distância cada vez maior entre as duas e entre elas e seus sonhos de uma vida diferente. Lila é proibida de continuar estudando e se ressente de Lenu, que continua na escola. E então o pior que poderia acontecer para Lila acontece: ela vira uma adolescente linda.

(Não há mulher bonita feliz,como diz Nelson Rodrigues)

(E claro que Lenu não vira uma adolescente bonita. E se ressente de Lila por causa disso)

Enquanto isso, o jeito de escrever da Elena Ferrante é tão cativante que não dá vontade de largar a história. Ainda tive um bônus que a voz da narradora do Audible me lembrou muito a voz de uma grande amiga minha que estuda literatura italiana, o que fez eu me sentir ainda mais próxima da Lenu. Mas acho que é impossível não se sentir na pele delas, mesmo o ambiente da Itália dos anos 50 sendo um ambiente tão diferente do nosso hoje em dia (mas, bem no fundo, nem é tão diferente assim). A relação entre as duas é tão humana, e eu sei que esse é um jeito brega de falar mas não consigo pensar em outro. Acho que poucas vezes me senti tão próxima de personagens, e mal posso esperar pra terminar a série – são 4 livros no total, por enquanto só o primeiro saiu em português mas todos os 4 já estão disponíveis em inglês.

Acho que não tenho mais o que dizer além de: Elena, seja lá quem você for, continue fazendo sua mágica com palavras porque está sendo sensacional.

A Amiga Genial (L’amica geniale)

Autora: Elena Ferrante

Tradução: Mauricio Santana Dias (português), Ann Goldstein (inglês)

Editora: Biblioteca Azul

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Um comentário sobre “A Amiga Genial [Elena Ferrante]

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