Universo Desconstruído #02 – [Coletânea]

Nenhum ser vivo, alienígena ou humano, foi ferido na confecção desta coletânea

“Por uma Ficção Científica com mais diversidade, que não seja machista, racista e homofóbica. Que o gênero mantenha sua pluralidade e sua visão de um mundo melhor.”

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A coletânea do Universo Desconstruído é uma delícia. Eu já tinha lido a primeira e fiquei sabendo que a segunda saiu no fim do ano passado, finalmente consegui ler. Universo Desconstruído é uma coletânea de contos que pode ser baixada gratuitamente (yay!) organizada por Lady Sybylla e Aline Valek, cuja proposta é dar lugar a contos com mais diversidade e menos preconceitos – de gênero, raça ou o que quer que for. Nesta edição são 8 contos e, como qualquer coletânea, tiveram partes que eu gostei mais e outras menos. Falando um pouquinho de cada um dos contos:

Corpo Escuro – Jarid Arraes

Em formato de cordel! Eu achei a coisa mais legal mas que mais me desanimou ao mesmo tempo. É minha mesma questão com ler peças de teatro: eu sinto que esse tipo de texto precisa do pacote completo (com música, representação, figurino, cenas, atores) pra funcionar pra mim. Só o texto eu não consigo entrar no clima.
(parênteses: pois é, nunca li Shakespeare, nem pretendo. Tentei uma vez, achei chato pra caralho e nem terminei. Assisti no teatro uma vez ao vivo – beijo, Shakespeare in the Park! <3 – e amei de paixão. Só sei que sou assim, gente, dsclp)
Então pra mim foi isso: a história é ótima – ano 3000, uma máquina de embranquecer é criada -, o formato é bacana, eu adoraria ter em cordel (e tô louca pra ver os outros cordéis da Jarid), mas não consegui entrar no clima tanto quanto gostaria. Me faltou uma dupla de repentistas recitando ao vivo. Alguém se oferece?

A Empresária que Vendia Sonhos – Fábio Kabral

Já esse eu li as partes dos sonhos todas na voz do Kabral.

Quanto está disposta a pagar pelo maior sonho de toda a sua vida?

Fayolah Mwanga é diretora do Departamento de Mídias Oníricas da Cidade das Alturas. Lá, ela vende sonhos, e seus próprios sonhos mostram muito mais do que podemos pensar na mistura imensa de coisas, pessoas e turbantes que é a Cidade das Alturas. Essa cidade, esse mundo, são o primeiro gostinho que a gente pode ter do Afrofuturismo, que está sendo escrito pelo Kabral e que eu acho que tem tudo pra ser um ambiente maneiro pra caralho. Esse conto é um grande entrelaçado de realidade e sonho, de gente buscando o poder e de Fayolah mostrando porquê veio ao mundo. Curti muito.

(mas faltou uma revisada melhor porque várias partes me pareciam ter pequenos erros de digitação e ainda não sei se isso foi de propósito ou não)

Amor Fortemente Elíptico – Marta Preuss

Também gostei. Amanda é uma cientista que vai pra Centauri-III ajudar em uma missão científica e acaba decidindo ficar, no meio daquela sociedade nova, muito parecida mas ao mesmo tempo essencialmente diferente. Lá ela acaba tendo uma filha – mistura de humana com centauriano – e está preocupada porque as taxas de mortalidade infantil dessas crianças em Centauri-III são misteriosamente altas. Achei que o começo demorou um pouco pra engatar, mas o fim compensa. Ah, se compensa.

O Resgate de Andrômeda – Thiago Leite

Ahh… sei lá. O conto é bacana, Andrômeda está presa, sendo atacada por um ser meio monstruoso, e vamos descobrindo aos poucos como, por que, e em busca do que. A história é redondinha. Mas não me envolveu muito. Fiquei com uma impressão um pouco de uma história que queria subverter estereótipos (“mocinho resgata mocinha”) e que fez isso, mas só. Fiquei com a sensação de uma história clichê com os gêneros invertidos, não foi um dos meus preferidos.

BSS Mariana – Lady Sybylla

Maravilhoso. Um dos meus preferidos. Uma nave misteriosa, desaparecida 100 anos atrás – Brazilian StarShip Mariana – resolve aparecer nos radares da Brazil Space Co. Ninguém sabe nada sobre ela além do seu nome. A capitã de Astrometria, Endyra, é responsável por descobrir porque a nave sumiu e, mais importante, por que ela reapareceu – e em que condição. A tripulação pode ter sobreviventes, mas eles não parecem em bom estado. É um conto muito bom, que me deixou intrigada e que conseguiu criar uma ótima imagem de um futuro no qual o espaço está sendo dominado por humanos e no qual a Brazil Space Co. existe e prospera. As personagens não parecem falsas ou forçadas em nenhum momento. Um dos pontos altos de todos os contos, na minha opinião.

A Divina Nervura do Virtual – Ben Hazrael

Errr… não. Como disse o Rodrigo VK, “é uma porra-louquice maravilhosa”. Se você gosta de histórias porra-louca, vai fundo, vai amar essa. Eu não gosto. Li umas cinco páginas e pulei pro próximo pq a vida é muito curta pra ler coisa que vc não curte (aka não sou obrigada).

Boneca – Clara Madrigano

Aquele momento: antes de colocar os pés para fora do colchão, rasgar a embalagem, a enchia de uma espécie de pavor; porque ela nunca sabia o que encontraria sob o papel colorido (embora também se tratasse de uma mentira. Ela sabia o que encontraria: bonecas. Mas não conseguia se dissociar do pavor, a coisa vivendo debaixo de sua pele, que dizia que, uma dia, ela poderia encontrar outra coisa: um dedo mindinho; uma mecha de cabelo; algo tirado dela enquanto estava dormindo).

Que conto sensacional. Meu preferido da coletânea, fácil. Esse trechinho aí de cima aparece logo no primeiro parágrafo e a partir dele o conto me ganhou. E só melhora.

Ele conta a história de Ariadne, uma garotinha que está presa em um porão há muito tempo, tanto que suas memórias do mundo lá fora são muito vagas, um sabor aqui, uma sensação ali, uma memória com a mãe. Seu desespero de estar lá presa aumenta a cada dia que passa, e ela um dia encontra o diário de uma menina que parece ter sido prisioneira lá antes dela. Qual teria sido o destino dela? Qual seria o destino de Ari se continuar lá? O conto pra mim teve dois clímaxes (é esse o plural de clímax?) e eu não arrisco dizer mais nada porque os dois são igualmente bons. E a autora consegue fazer uns foreshadowings maravilhosos. Li duas vezes, provavelmente lerei de novo, e se eu tivesse que recomendar só um conto desses todos pra vocês lerem, é esse.

Espectro – M. M. Drack

Ficção científica com gostinho de Cavaleiros do Zodíaco!

Mentira gente, brincadeira, mas minha memória não resistiu à nave de resgate Zodíaco, pilotada por Magellan pra fazer o resgate da Halcyon, nave que se perdeu das outras na Missão Santuário em busca de novos planetas onde a humanidade poderia se assentar. A missão é extremamente importante pra Magellan: dentro da nave estão seus 13 irmãos adotivos, que cresceram juntos num orfanato tendo apenas uns aos outros. A lista de nomes e referências a CdZ, mitologia grega e japonesa é bem grande, mas não tira o brilho da história, que também é muito legal e bem feita. Fecha muito bem a coletânea. Acho que o único pecado dela é justamente ter personagens secundários demais, essa família imensa, e aí a parte que ela meio que para pra te apresentar a todos os irmãos fica um pouco mais lenta e eu ainda fiquei um pouco perdida com qual irmão era qual. Me senti relendo O Hobbit sem nunca saber de qual anão eles estavam falando XD

Enfim

É uma iniciativa bacana, uma coletânea bacana, autores bacanas. Eu recomendo demais, até porque já falei que é de graça? Uma ótima leitura pra quem está a fim de contos :)

Universo Desconstruído

Organizadoras: Lady Sybylla e Aline Valek

Autores: Ben Hazrael, Clara Madrigano, Fábio Kabral, Jarid Arraes, Lady Sybylla, M. M. Drack, Marta Preuss, Thiago Leite

Ilustração da capa: Theodore Guilherme

Editora: Independente (baixe aqui!)

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