It came from the North – [Coletânea]

Ficção especulativa finlandesa

Eu ganhei o ebook dos VanderMeer ano passado, onde eles fizeram altas recomendações de leituras depois de um workshop no qual eu participei. O coitado ficou esperando no kindle por um bom tempo. Eu sempre olhava pra ele e pensava em uma desculpa ou outra – “não estou com vontade de ler contos agora”, “mas eu quero tanto ler aquele outro livro primeiro”, “ele fica pro próximo”. Até que um dia eu estava no metro, acabei o livro que estava lendo e pensei que podia ler um dos contos desse livro só pra não ficar sem ler nada no longo caminho até a aula de dança.

Eu quase perdi a estação em que tinha que descer.

(o que nos ensina que se o seu professor de creative writing indica fortemente um livro, ele provavelmente está certo)

north

(a capa também não me ajudou muito, achei esquisitinha)

Mas vamos lá. It Came From the North é uma coletânea com 15 contos de ficção especulativa editado por Desirina Boskovich. O objetivo da antologia era apresentar pro mundo a literatura especulativa da Finlândia, que acaba sendo bastante inacessível porque a maioria da produção literária do país acaba não sendo traduzida – o que eu acho que acaba sendo um problema com qualquer literatura atualmente que não seja escrita em língua inglesa, ela fica de certa forma limitada aos países do seu idioma de origem a menos que faça muito sucesso e que chame a atenção de alguma editora internacional. E vamos combinar né o número de gente capaz de ler em finlandês no mundo é bem pequeno se comparado com outras línguas. A editora, Cheeky Frawg, busca exatamente divulgar essas pérolas de ficção especulativa que a gente dificilmente conheceria de outra forma, pelo que eu entendi.

E olha, sorte nossa que eles fazem isso. Esses contos são sensacionais. Dos 15 contos acho que só um eu efetivamente não gostei (apesar de entender o apelo pra outras pessoas, mas eu já comentei em algum momento que muito nonsense junto não me agrada) e mais uns dois ou três eu achei fracos. Mas a grande maioria foram daqueles contos que ficam na cabeça e que você continua pensando neles por um bom tempo. Vou falar um pouquinho de cada um:

“Hairball” de Carita Forsgren (trad. Anna Volmari e J. Robert Tupasela)

Ééééé foi esse que eu não gostei. Eu sei, tô aqui falando bem da antologia e logo o primeiro não foi legal. A história é basicamente sobre uma garota que encontra uma bola de cabelos viva no ralo do banheiro e o serzinho passa a viver com ela, crescendo e se transmutando em um homem pelo qual ela se apaixona. A execução é boa, o conto é bem escrito, mas eu não gostei da premissa, achei muito “wtf?” (“Mas é ficção especulativa, Ágata, pode ter a premissa que for!” eu sei, eu sei, fazer o que)

“The Horseshoe Nail” de Mari Saario (trad. Liisa Rantalaiho)

Foi o que me fez quase perder a estação do metro. Achei demais! Ele mistura tudo que eu mais gosto: realismo fantástico com um equilíbrio que faz você ficar pensando que isso bem que pode acontecer em algum canto desse mundo enorme. A história começa quando Alice, uma menina de 8 anos de idade, vai se refugiar na antiga e esquecida forja do seu avô para fugir da bebedeira e violência do pai. Mas lá, em vez da paz e do silêncio de costume, ela encontra dois homens enormes e assustadores, a cavalo, que querem ajuda do ferreiro daquela forja para que possam chegar a tempo e mudar os rumos de uma grande batalha. Alice não sabe se está ficando louca ou não, tudo aquilo parece irreal, mas os homens tem um quê de mágico e imponente. E Alice está fascinada pelo fogo que faz a forja reviver. Eles reaparecem algum tempo depois – 10 anos para Alice, apenas alguns meses para eles – e a essa altura do campeonato, Alice já não é mais tão pequena e eles já não parecem mais tão assustadores…

Not Before Sundown (trecho) por Johanna Sinisalo (trad. Herbert Lomas)

Começamos o conto com Angel, um fotógrafo voltando de uma noite um tanto quanto desastrosa num bar. Já quase em casa ele encontra um grupo de adolescentes que parecem estar se divertindo maltratando algum filhote de animal perdido e que não tem condições de reagir. Ele espanta os adolescentes e, pra sua surpresa, o animalzinho perdido é um filhote de troll. Pois é. Como é explicado um pouco mais pra frente, nesse mundo os trolls foram descobertos como uma espécie real de animais, muito difíceis de estudar e considerados como lendas por muito tempo devido aos seus hábitos reclusos e por serem um animal muito tímido. Eu adorei a parte em que o Angel pesquisa sobre trolls na internet pra saber o que fazer com aquele bicho, foi um worldbuilding que não atravancou o texto. E tenho que admitir que eu amei a ideia de criaturas mitológicas serem descobertas como animais reais. O trecho da coletânea é o começo do livro e assim que eu terminei fui logo procurar o resto, mas me decepcionei um pouquinho. O livro foi lançado nos EUA como “Troll: A love story” e a sinopse oficial é mais ou menos assim:

Angel searches the Internet, folklore, nature journals, and newspaper clippings, but his research doesn’t tell him that trolls exude pheromones that have a profound aphrodisiac effect on all those around him. As Angel’s life changes beyond recognition, it becomes clear that the troll is familiar with the man’s most forbidden feelings, and that it may take him across lines he never thought he’d cross.

Ew, galera. Sério? Parece sinopse soft-porn de banca de jornal. Não sei se o objetivo era esse e as vezes o livro é ótimo e não tem nada a ver com isso, mas perdi a vontade de ler. Se alguém aí quiser encarar, depois me conta o que achou.

“Elegy for a Young Elk” por Hannu Rajaniemi

Esse conto mistura imagens de florestas e cidades futurísticas de um jeito que criou imagens sensacionais na minha cabeça (e olha que não sou lá a mais visual das leitoras). Kosonen é um poeta solitário que não consegue mais escrever e vive semi-isolado na floresta, sua única companhia sendo a de um urso bêbado e falante. Todas as formas de tecnologia foram atacadas pela praga, ganhando consciência, e o isolamento foi o que fez Kosonen sobreviver até agora. Mas os deuses precisam de um favor dele, e aparecem como chuva tomando a forma de Marja, ex-mulher de Kosonen, fazendo uma proposta irrecusável: ele busca o que só um ser humano pode buscar dentro da cidade e os deuses devolvem a ele as palavras que tanto lhe faltam. A tradução desse conto é um caso a parte e não posso repetir demais que ele cria imagens lindas na sua cabeça. Seria algo a ser transformado em filme ou animação fácil.

“White Threads” por Anne Leinonen (trad. Liisa Rantalaiho)

SIM SIM SIM. Premissa maravilhosa. Helena Garcia Luna foi encontrada vagando pela rua e atualmente é acompanhada por um instituto de pesquisa que quer estudar suas capacidades, mas ela sempre acaba fugindo e dando pau (crashing), como um computador. Porque o cérebro de Helena, por algum motivo, é diferente. Ela é oscilante. Isso significa que, quando não está sob observação, ela consegue acompanhar as inúmeras possibilidades da existência e escolher naturalmente o estado que é mais favorável pro que ela quer. Como uma partícula quântica que pode ter vários estados até ser observada (rola uma explicação muito melhor da que eu vou conseguir fazer aqui). Ela consegue seguir os “fios brancos”, como ela os chama. Por exemplo, existe uma possibilidade de 1% de a porta estar aberta e ninguém estar no seu caminho e o elevador chegar exatamente no momento em que ela precisa quando Helena tenta fugir. E ela consegue criar essa realidade. Mas, quanto mais pessoas a observam, mais ela fica instável, e acaba tendo esse pau mental que faz com que ela perca a memória. E a Helena, pobrezinha, só quer um gato. E vai ter que fugir para o meio da cidade, correndo contra o tempo antes que ela dê pau de novo.

“The Laughing Doll” por Marko Hautala (trad. Jyri Luoma)

Uma história meio creepy, umas pitadas de terror muito bem feitas. Dois casais de amigos se encontram pra passar a noite juntos bebendo e conversando, e as mulheres começam a contar de uma lenda local de quando elas eram crianças, a laughing doll. Essa história começa a deixar um dos maridos visivelmente perturbado, enquanto o outro está mais preocupado em saber se seu amigo suspeita do que aconteceu com ele e a esposa do amigo da última vez que se viram. A tensão vai crescendo e crescendo cada vez mais e o final conseguiu ser ao mesmo tempo aberto e assustador.

“Delina” por Maarit Verronen (trad. Hildi Hawkins)

Um viajante lá no começo dos seus 20 anos, em uma pequena cidade de um país pobre da África, conhece Delina quando ela ainda é adolescente e cheia de desejos e possibilidades na vida. Anos depois ele volta para a mesma cidade e tenta encontrar Delina de novo, mas o futuro dela não é o que ele esperava. Até que ele vai descobrindo que ela, também, talvez não seja o que ele esperava.

“Chronicles of a State” por Olli Jalonen (trad. David Hackston)

O começo demorou um pouquinho pra engatar, mas depois foi ficando bem mais interessante e complexo. Vamos descobrindo a história do Estado de K, contada por um ex-jornalista exilado que, como vamos descobrindo aos poucos, narrou em primeira mão os eventos do desastre que destruíram o Estado de K e participou – talvez ativamente demais – na sua reconstrução. Me lembrou daquele ditado, “you either die a hero…”

“Watcher” por Leena Likitalo

Outro meio esquisito que eu ainda estou em dúvida se achei legal ou não. Nós conhecemos primeiro as pessoas da horda, trancados eternamente numa sala cinza e vigiados dia após dia pelo Watcher. Eles invejam as borboletas, que conseguem ver pelo vidro da única porta no recinto, que circulam o dia inteiro sentindo o calor do sol e o frescor da noite. Mas conforme o conto vai passando, descobrimos que também as borboletas e também o Watcher talvez tenham tão pouco poder quanto aqueles que habitam a sala cinza.

“The Border Incident” por Tuomas Kilpi

Um outro conto muito divertidinho. Estamos na Normalia, terra dos Norms, onde tudo é ordenado e todos são extremamente normais. Exceto uma garota. E essa garota quer poque quer cruzar a fronteira da Normalia apenas pra ver o que tem do outro lado e pra sair da mesmice. Isso obviamente causa um transtorno pro guarda de fronteira, e o resultado é hilário.

“Ospreys” por Tiina Raevaara (trad. David Hackston)

Há pelo menos 30 anos, todo dia 15 de abril um casal de águia-pescadora* vai ao pântano fazer seu ninho. E há pelo menos 30 anos um homem vai lá observar o casal. O casal de aves é um mistério – não é o mesmo casal todos os anos, mas é um casal praticamente igual, que chega sempre no mesmo dia, da mesma forma, no mesmo local. O pântano é um personagem por si só, místico e cheio de segredos. O homem pode não desvendar todos os segredos das aves e o local, mas ele observa, pacientemente, ano após ano.

Swamps are always paradoxical. They are at once dead and alive; they decompose, and, at the same time, from that very decomposed matter they produce life. Swamps grow at thr surface and die from the inside, simultaneously, for thousands upon thousands of years.

* Osprey, pra mim, está no grupo de cramberry/oxicoco como “nomes tão bonitinhos em inglês e tão esquisitos em português”

“The Garden” por Jyrki Vainonen (trad. Anna Volmari e J. Robert Tupasela)

Um pai, uma mãe, um menino e o jardim que eles tanto prezam. Esses são os elementos que aparecem nessa história, que começa contando de uma planta misteriosa que deixa os pais do menino doente e faz com que ele tenha que se virar na casa – e continuar cuidado do jardim- enquanto eles estão acamados por algo que o menino jura que deve passar logo. É aquele tipo de história onde a inocência infantil acaba sendo ligeiramente perturbadora, e eu adoro esse tipo de história. Também tem um aspecto visual muito legal, onde o jardim verdejante e a decadência da casa são quase palpáveis.

“The Gift Boy” por Sari Peltoniemi (trad. Liisa Rantalaiho)

Outro nos meus top3 dessa coletânea. Thistel é uma tatuadora que recebe, em seu aniversário de 50 anos, um presente um tanto quanto inesperado de seu amigo/amante/rival Heron: Peregrine, um garoto de 18 anos. Um aprendiz, em teoria, que se torna na prática também um amante e companheiro. Thistel sabe que Heron deve ter algum outro motivo para mandar o aprendiz mas ainda assim aceita sua companhia. Conforme o tempo passa ela começa a perceber que Peregrine talvez também tenha seus próprios planos e que sua força pode não ser suficiente para ir contra tudo que começa a se colocar contra ela. Eu adorei o mundo, meio mágico e meio com um toque medieval, que é definitivamente um dos meus fracos.

“A Heart Clothed in Black” trecho de Pereat Mundus: A Novel, Sort Of por Leena Krohn (trad. Hildi Hawkins)

Hmmm mais ou menos. O personagem é um avaliador de originais de uma editora que ganha a vida aceitando ou (principalmente) negando originais de uma grande editora. Talvez por ser o trecho inicial de um livro eu tenha achado um pouco devagar. O personagem principal parece alguém interessante, se não peca por ser um tanto apático, mas não me ganhou por completo.

“Those Were the Days” por Pasi Ilmari Jääskeläinen (trad. Liisa Rantalaiho)

Esse. Conto.

Os calendários foram abandonados oficialmente desde o grande incêndio no Centro de Pesquisa do Tempo. A vida é vivida eternamente na Terça-feira, um nome que não significa muita coisa, já que ninguém se lembra o que são os outros dias da semana ou pra que eles serviram, um dia. Poças de tempo aceleram ou atrasam o tempo de quem entra nelas inadvertidamente. E, no meio disso tudo, um homem é perdidamente apaixonado por sua Lady Librarian, com quem ele sonha frequentemente e jura que em seus sonhos eles vivem juntos numa casa na praia. Ele finalmente toma coragem para falar com ela e ela, estranhamente, também tem o mesmo sonho. Juntos, eles acabam descobrindo um misterioso mundo de universos paralelos que incluem todos os outros dias da semana.Eu me enrolei um pouquinho quando ele começa a explicar toda a questão do tempo nesse universo, mas depois que você pega isso tudo flui e o conto é maravilhoso. Sabe quando fazem o último conto de uma coletânea ser o melhor pra que a gente sinta que valeu a pena chegar até lá, mesmo que tenha detestado os outros? Então. Acho bem difícil odiar todos os outros contos dessa, mas só pra garantir, eles colocaram essa história. E que história.


Ufa! Quanto conto. Mas valeu a pena. Se você lê em inglês e curte ficção especulativa, cai dentro – com certeza de alguma coisa você vai gostar!

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Um comentário sobre “It came from the North – [Coletânea]

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