História do novo sobrenome [Elena Ferrante]

Da Amazon:

“Lila, que teve os estudos interrompidos por questões familiares – muito cedo teve que trabalhar com o pai e o irmão, se casou cedo. Lenu, por sua vez, consegue se desvencilhar do destino certo das moças da época e não se casa, mas passa a se preparar para a faculdade, levando consigo as marcas definitivas da complexa relação de amizade com Lila – admiração misturada a identificação.”

[Atenção: se você ainda não leu A Amiga Genial, sai daqui que tem spoilers. Ou fica, sei lá, eu não mando na sua vida. Mas já sabe: spoilers]

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Tão linda essa capa *-*

Eeeee vamos lá finalmente terminei o segundo livro da série Napolitana. Sou péssima com séries gente, me desculpem. Quando terminei o primeiro livro eu pulei pro segundo rapidinho só pra saber o que acontecia, já que eu Amiga Genial a Elena Ferrante nos deixa com um cliffhanger danado, que eu estava achando que podia muito bem começar com uma guerra napolitana (guerra de morango chocolate e baunilha?)

E aí a história começa e… nada de caos no casamento. Aparentemente, nada de mais. Começamos com Lenu nos contando sobre ter ganho os diários da Lila da época, que eu achei uma ferramenta bem legal pra explicar porque a Lenu sabe de tudo que está acontecendo com a Lila, seus pensamentos e segredos. Mas mesmo depois disso, quando voltamos pra festa tem só um gosto de decepção: em vez de fazer um escândalo, de anular o casamento lá mesmo porque o Steffano mal casou e já traiu totalmente a confiança dela, Lila parece rir e aceitar tudo o que está acontecendo. E a gente começa a se perguntar se essa Lila Caracci virou mesmo uma pessoa tão completamente diferente da Lila Cerullo.

No fim das contas, a resposta é não. E isso não é nada, nada bom pra Lila.

Lila não se adapta. Lila volta da lua de mel espancada e estuprada pelo marido, que revela ser bem diferente do que era como namorado. O dinheiro e o conforto oferecidos por ele são bons, mas não bons o suficiente para acalmar a sempre inquieta Lila. Mas todos no bairro dizem que ela deve apenas aceitar calada e aproveitar o que conseguiu.

Eu achei muito interessante como nesse livro as diferentes expectativas que o bairro tem sobre as duas garotas vão moldando a vida de cada uma delas mais e mais. O bairro todo se esforça pra sufocar a Lila, fazer com que ela aceite que é e vai continuar sendo tão medíocre quanto o resto deles, que ela casou com o melhor homem do bairro mas ainda assim vai apanhar dele como todas as outras mulheres. Com a Lenu, pelo contrário, a sensação é que ela é diferente deles todos, ela é escolhida, ela é inteligente, e a cada ano que passa, quanto mais ela estuda, mais ela vai se isolando, até finalmente conseguir deixar o bairro para estudar em Pisa.Mas a relação entre as duas é o total oposto da visão das pessoas do bairro: Lila não deixa de lado o ar de superioridade ao lidar com Lenu e esta continua querendo provar para Lila que ela é mais do que só uma garotinha estúpida.

E sem dúvida a relação das duas é o ponto forte do livro. Os anos passam e elas tentam se afastar mas parecem estar presas por uma lealdade feroz a uma amizade que eu diria que beira o abuso em alguns momento, mas que eu outros é tão pura e necessária que as duas não conseguiriam viver sem ela. Um dos momentos mais bonitos dessa amizade, pra mim, é quando elas destroem a foto de casamento da Lila. Mas em todos os anos que se passam no livro, com todas as coisas que acontecem – traições, ganhos e perdas de dinheiro, de amigos, de status, anos de separação – elas não conseguem deixar de ir uma atrás da outra.

I understood that I had arrived there full of pride and realized that—in good faith, certainly, with affection—I had made that whole journey mainly to show her what she had lost and what I had won. But she had known from the moment I appeared, and now, risking tensions with her workmates, and fines, she was explaining to me that I had won nothing, that in the world there is nothing to win, that her life was full of varied and foolish adventures as much as mine, and that time simply slipped away without any meaning, and it was good just to see each other every so often to hear the mad sound of the brain of one echo in the mad sound of the brain of the other.

Além de tudo, este livro ganha meu prêmio pessoal de “Xinguei alto pelo menos cinco vezes”. Sério. Especialmente os homens. Não sobrou UM sem xingar. Steffano e Nino estão lá, pau a pau pro prêmio de pior cara de Nápoles, mas não acho que os outros tenham ficado muito pra trás. Renucho deve ter sido o único que se salvou nesse ponto. E olhe lá.

A voz narrativa da Elena Ferrante continua tão cativante como sempre. Terminamos em um outro cliffhanger de querer morrer, mas acho que mesmo sem ele a vontade de continuar seguindo a história das duas está garantida. Não canso de me enrolar nesse balaio de gato que é as vidas da Lila e Lenu.

Historia do novo sobrenome [Storia del nuovo cognome]

Autora: Elena Ferrante

Tradução: Mauricio Santana Dias (português), Ann Goldstein (inglês)

Editora: Biblioteca Azul

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It came from the North – [Coletânea]

Ficção especulativa finlandesa

Eu ganhei o ebook dos VanderMeer ano passado, onde eles fizeram altas recomendações de leituras depois de um workshop no qual eu participei. O coitado ficou esperando no kindle por um bom tempo. Eu sempre olhava pra ele e pensava em uma desculpa ou outra – “não estou com vontade de ler contos agora”, “mas eu quero tanto ler aquele outro livro primeiro”, “ele fica pro próximo”. Até que um dia eu estava no metro, acabei o livro que estava lendo e pensei que podia ler um dos contos desse livro só pra não ficar sem ler nada no longo caminho até a aula de dança.

Eu quase perdi a estação em que tinha que descer.

(o que nos ensina que se o seu professor de creative writing indica fortemente um livro, ele provavelmente está certo)

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(a capa também não me ajudou muito, achei esquisitinha)

Mas vamos lá. It Came From the North é uma coletânea com 15 contos de ficção especulativa editado por Desirina Boskovich. O objetivo da antologia era apresentar pro mundo a literatura especulativa da Finlândia, que acaba sendo bastante inacessível porque a maioria da produção literária do país acaba não sendo traduzida – o que eu acho que acaba sendo um problema com qualquer literatura atualmente que não seja escrita em língua inglesa, ela fica de certa forma limitada aos países do seu idioma de origem a menos que faça muito sucesso e que chame a atenção de alguma editora internacional. E vamos combinar né o número de gente capaz de ler em finlandês no mundo é bem pequeno se comparado com outras línguas. A editora, Cheeky Frawg, busca exatamente divulgar essas pérolas de ficção especulativa que a gente dificilmente conheceria de outra forma, pelo que eu entendi.

E olha, sorte nossa que eles fazem isso. Esses contos são sensacionais. Dos 15 contos acho que só um eu efetivamente não gostei (apesar de entender o apelo pra outras pessoas, mas eu já comentei em algum momento que muito nonsense junto não me agrada) e mais uns dois ou três eu achei fracos. Mas a grande maioria foram daqueles contos que ficam na cabeça e que você continua pensando neles por um bom tempo. Vou falar um pouquinho de cada um: Continuar lendo

Como vai a vida

Muito cheia de coisas pra fazer! Eu estou devendo uma boa atualização (e um tanto de resenhas também, mas uma coisa por vez). Li 8 livros desde a última resenha que postei e nem todos eles vão ganhar um post próprio, mas todos eles merecem alguns comentários. Então vamos lá:

O que eu andei lendo

Um bocado de coisa, na verdade! Viva o kindle, viva o trem e o metrô e viva principalmente minha vontade de esquecer isso tudo que anda acontecendo aí ultimamente.

O último livro que eu falei aqui foi o Filhos da Meia Noite. Depois dele, eu li:

Eu sou Malala – Malala Yousafzai e Christina Lamb

Eu já tinha curiosidade de ler, ele pulou a fila graças ao projeto do Alimente Heróis com Livros no Catarse. É bem legal, mas minha única crítica é que em alguns momentos a narração em primeira pessoa, como se fosse a própria Malala escrevendo, soa muito falsa e isso quebra o ritmo do livro. Esses dois momentos são no começo, quando o livro fala da história dos pais, da situação do Paquistão no momento em que ela nasce e de quando ela ainda é bem bebezinha, e depois quando ela é baleada no atentado terrorista*. Mas foi uma história que eu adorei ler, acho que estou me interessando mais por biografias ultimamente.

No Paquistão, quando as mulheres dizem que querem independência, as pessoas acham que isso significa que não desejam obedecer a seus pais, irmãos ou maridos. Mas não é isso. Significa que queremos tomar decisões por conta própria. Queremos ser livres para ir à escola ou para ir trabalhar. Não há nenhum trecho no Corão que obrigue a mulher a depender do homem. Nenhuma mensagem dos céus estabeleceu que toda mulher deve ouvir um homem.

* Melhor coisa de falar sobre biografias é que não tem perigo de dar spoiler.

The devil in America – Kai Ashante Wilson

Um conto publicado na Tor.com e disponível gratuitamente em inglês. Uma família negra nos Estados Unidos tenta lidar com o demônio na América, que não é o mesmo com o qual seus antepassados estavam acostumados a lidar na África – e eles próprios já não são os mesmos, depois de terem sido arrancados de sua terra e sua história sem direito a levar seus conhecimentos ancestrais com eles. Tem trechos bem pesados porque lida com negros americanos na época da segregação e toda a violência sofrida por eles, mas é um realismo fantástico bem legal, conforme você vai começando a entender o que está acontecendo e o que são realmente as disputas da família com a mágica que corre em seu sangue.

“I told him, Easter.” Ma’am wiped forefinger and thumb down each dandelion leaf, cleaning off grit and bugs, and then lay it aside in a basket. “Same as I told you. Don’t mess with it. Didn’t I say, girl?”

“Yes, Ma’am.” Easter scooped the clumps of butter into the bowl.

Ma’am spun shouting from her work. “That’s right I did! And I pray to God you listen, too. That fool out there didn’t, but Good Lord knows I get on my knees and prayevery night you got some little bit of sense in your head. Because, Easter, I ain’t got no more children—you my last one!”

It came from the North – Vários

Coletânea de contos finlandeses MUITO BOA. Estou escrevendo um post só pra ela falando mais um pouco de cada conto, mas vale dizer que aposto que vai ser um dos preferidos do ano, fácil fácil. Continuar lendo

Sobre a vida depois do desastre

A única fonte de luz do quarto é uma vela já além da metade. Os dois se olham sob a luz dançante, que amarela suas peles enquanto mostra vales e cria sombras nos rostos tão próximos. Eles estão no quarto há horas.

Ele estica o braço, ela encosta a cabeça no espaço do ombro esquerdo. Ela não cansa de se surpreender com o ajuste perfeito da cabeça dela nos braços dele. Ela dá um looooongo suspiro, seu corpo todo levantado pelos pulmões, segurando o ar, e então soltando tudo de uma vez como quem solta o peso do mundo. Ela fecha os olhos.

Ele a observa, silencioso, por alguns minutos. Então, com a mão livre, ele começa a fazer carinho nos longos cabelos dela, que se espalham como uma cortina negra.

Ela abre os olhos.

– Desculpa, te acordei?

– Não, eu não tava dormindo.

Ele sorri.

– Claro que tava. Você sempre apaga em dois minutos.

– Hhhhmmmmm – ela enfia a cara no ombro novamente enquanto esconde uma careta. Ele ri.

– Vai, o que foi?

– Não quero dormir hoje.

– Por que?

– Porque essa é minha última vela.

– … ah

– Tsc. Eu não queria te falar. Agora você vai ficar assim…

Ele olha para cima, os olhos sem estarem exatamente fixos em nada, e o silêncio os envolve novamente. A luz continua fazendo sombras dançarem na parede enquanto, na realidade, nada se move.

– Não tem problema – ele finalmente diz.

Um nó aperta na garganta dela e ela se esforça para desfazê-lo.

– Não tem mesmo como fazer mais velas?

– Você sabe que não – ela diz, com o tom de voz cansado de quem já teve essa conversa mil vezes, e pelo menos a metade das vezes a discussão foi dela com ela mesma. – Eu não conseguiria nem metade das coisas necessárias. A primeira vez já foi uma sorte imensa.

– Eu sei, eu sei – ele tenta parecer calmo e volta a passar as mãos no cabelo dela, num lento cafuné – Que merda.

Ela ri, finalmente. A tensão do quarto diminui um pouco.

– Mas sabe – continua ela, que deita de lado, ainda sorrindo – essas noites sempre foram minhas preferidas.

– Também, né, a gente só dá certo assim. Sozinhos, durante a noite, ignorando o resto do mundo.

Ela sabe que isso é verdade, mas o fato não faz o amor que sente diminuir em seus olhos. Infortúnios, ela pensa. Alguns caminhos são muito diferentes e não há nada a se fazer a respeito disso. É possível ter todo amor do mundo, mas os dois sabiam bem que amor, só, não é suficiente. É preciso ter toda uma outra conjunção de fatores. Que eles não tinham.
– Uma noite eterna só pra nós dois. Vou pensar nisso da próxima vez.

– Mulher mas não vai ter vela suficiente no mundo – agora é ele que ri.

Um sorriso e uma ideia parecem passar pela mente dele.

– A vela vai até de manhã, como sempre?

– Até de manhã

– Ceeeerto…

Ele olha com um olhar jovem, que ela não vê há tempos, que de repente a joga anos e anos para trás, quando toda aquela bagunça começou e eles não passavam de crianças crescidas com hormônios demais.

– Hum, posso saber o que você tem em mente? – ela diz, com a cara de quem sabe muito bem o que ele tem em mente e que aprova a ideia.

– Bom… – ele escorrega a mão pelo quadril nu dela, um toque cheio de calor, cheio de carinho – Ainda tem um tempinho até o amanhecer.

Horas depois eles estão deitados, ele abraçando ela, enquanto a vela queima em seus últimos segundos. Em instantes a luz do quarto vai se apagar e começar a ser substituída pela luz da manhã, implacável, entrando pela janela.

Ele começa a se tornar insubstancial. No momento em que a chama se apaga ela ouve a voz dele ao longe, dizendo “boa noite, meu anjo”. Depois disso, nada. Não há sombras na parede para refletir os soluços descontrolados do corpo dela.

 

Os Filhos da Meia Noite [Salman Rushdie]

Uma maravilhosa bagunça

Do site da Companhia das Letras:

O muçulmano de família abastada Salim Sinai, que narra em primeira pessoa a sua história, nasceu em Bombaim à meia-noite de 15 de agosto de 1947, no instante em que a Índia se tornava uma nação independente. A trajetória de Salim estará ligada à complexa e conturbada saga de seu país.
Todos os mil e um indianos nascidos entre a meia-noite de 15 de agosto e a uma hora da madrugada de 16 de agosto de 1947 desenvolveram poderes extraordinários; o de Salim é a telepatia, que lhe permite reconstituir a história de sua família desde 1910 e examinar os acontecimentos políticos e culturais da Índia.

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Tão bonita essa capa *-*

Uns dias atrás eu estava conversando com uma amiga (oi Rô o/) sobre abandonar livros. Eu comentei que abandono livros sem peso na consciência, até porque na maioria das vezes eu abandono um livro porque percebo que aquele livro, naquela hora, não vai  rolar. Acho que livros dependem de um certo grau de timming entre leitor e livro, e as vezes você simplesmente não tá com cabeça pra um livro daquele jeito naquela hora.

(que o diga eu tentando ler Virginia Wolf no meio de um término de namoro incrivelmente longo, tenso e deprimente. Larguei depois de umas 20 páginas. Um dia eu termino, Virginia, juro)

Filhos da Meia Noite foi um livro desses. Eu na verdade comecei a ler esse livro lá no meio do ano passado, depois de ter comprado em alguma das promoções maravilhosas da Cia das Letras. Eu sou louca por realismo fantástico, me indica um mundo real com magias pra lá e pra cá e eu já fico me coçando pra ler – o que já me causou ótimas surpresas e algumas decepções gigantes. Então imagina, 1001 crianças mágicas com o destino ligado ao destino da Índia. O livro me interessou de cara, mesmo com suas 600 páginas ligeiramente intimidadoras. Aí eu comecei a ler. Aí o livro é mais ou menos assim: Continuar lendo

A Lenda da Bela Carolina

He told me that when a very beautiful girl was born in a family that had not been noted for good looks, her beauty was thought to have come from the Sidhe, and to bring misfortune with it. He went over the names of several beautiful girls that he had known, and said that beauty had never brought happiness to anybody. It was a thing, he said, to be proud of and afraid of.

The Celtic Twilight: Faerie and Folklore (W. B. Yeats)

Muito se falava e pouco se sabia sobre o assassinato da Bela Carolina.

O que se sabia: Carolina tinha 17 anos quando, no dia 29 de fevereiro, foi encontrada morta num terreno baldio próximo ao clube municipal. O caso teve inúmeros suspeitos, mas nenhum foi formalmente indiciado e o caso foi fechado, sem solução.

O que se falava: que a menina Carolina era tão bonita, mas tão bonita, que havia enlouquecido um dos homens da cidade. Alguém não aceitou não ter aquela beleza para si – ela negava os avanços de todos os homens, que sempre eram feitos com mais ou menos força, com mais ou menos insistência. Diziam que homens e mulheres a viam como alguém de beleza e status sobrenatural, o que causava medo nas mulheres e luxúria nos homens. Diziam que ela só tinha uma amiga. Diziam que ela e essa amiga se beijavam.

Naquele sábado bissexto foi feita uma festa especial. A ideia da festa era fazer uma grande comemoração, um aniversário comunitário a todos os nascidos em 29/02 com muita música e dança, organizada pelo clube municipal para arrecadar dinheiro pra uma causa qualquer. A causa do carro novo de um dos dirigentes, provavelmente. Isso não importa. O que importa é que a festa foi feita.

Para aquela festa Carolina ousou se arrumar, usar o vestido novo que não usava nunca, passar um batom vermelho que combinava com as unhas curtas e recém feitas. Ela era chamada de Bela Carolina desde os 11 anos, mas a atenção a deixava desconfortável e ela evitava se arrumar para ver se a simplicidade a faria ser esquecida. Mas parecia que seus esforços tinham o efeito contrário, e todos se espantavam sobre como, para ela, era tão fácil ser linda. Só que ela tinha decidido que aquele dia seria diferente. Era um dia especial: aniversário da Gabriela. O primeiro que elas realmente passariam juntas, pois nos outros anos sempre comemoravam antes ou depois. Elas também tinham resolvido, juntas, que hoje não iriam se importar com a sociedade pequena daquela cidade e que dançariam juntas, comemorariam juntas, seriam em público o que eram às escondidas. O dia extra de fevereiro seria pra elas um dia especial no qual poderiam ser quem eram. As duas estavam felicíssimas. Achavam que, por um dia mágico, ninguém poderia tocá-las.

Elas dançaram na festa como quem nunca tinha dançado antes, as duas saias esvoaçando juntas pelo salão e criando uma redoma que as protegia dos olhares tortos que vinham por todos os lados. Garotos tentavam chamar Carolina pra dançar e ela negava com cara de desprezo. Um deles chegou a puxar Gabriela pelo braço pra ela abrir caminho, mas Carolina gritou “sai!” e puxou a outra menina para perto de si. Quando as músicas lentas começaram a tocar elas dançaram juntinhas, Carolina cantando baixinho “parabéns pra você” no ouvido de Gabriela. Não se desgrudaram o dia inteiro.

Mas se desgrudaram na saída. Não tinham opção, Gabriela ia embora com as primas e Carolina teria que ficar para esperar a carona do pai. Foi a última vez que elas se viram.

A partir daí a história se confunde: ninguém admitiu ter visto Carolina depois de sua despedida com um beijo na bochecha de Gabriela. Apesar de toda a metade jovem da cidade estar presente naquela festa, ninguém podia se lembrar de ter visto Carolina acompanhada de alguém, indo para algum lugar. O pai alegava que Carolina não estava no local e na hora combinada, mas a esposa dizia que ele só chegou em casa com essa notícia horas depois. Os garotos conhecidos por irem atrás da menina com mais insistência disseram que não estavam lá, ou que tinham saído mais cedo, ou que estavam com outras pessoas. O próprio delegado, um homem velho, de cheiro acre e que fazia barulho enquanto mastigava, não parecia muito disposto a pressionar os suspeitos depois de um simples “não, senhor, não vi nada”. Todos já tinham visto o delegado seguir Carolina de carro, nos fins de tarde, insistindo em dar a ela uma carona para casa.

As mulheres da cidade ficaram aterrorizadas. Olhavam para todos os homens e garotos com desconfiança, e os homens olhavam entre si com um silêncio desconfortável. Entre as mulheres corria à boca miúda que todos eles sabiam quem foi, e que tinham concordado em manter silêncio. Nem todas acreditavam nessa história, mas nem todas tinham coragem de negar. Gabriela foi enviada pela família a um colégio interno em outro estado, de onde só voltava por alguns dias, no Natal, proibida de sair de casa.

A vida continuou, como sempre continua, mas a Bela Carolina não foi esquecida. Por motivos diferentes. Os homens continuaram a sonhar com sua beleza, as mulheres continuaram a ter pesadelos com seu sofrimento. Até o próximo 29 de fevereiro, quatro anos depois.

Diz-se que naquele dia a cidade amanheceu nublada, cinza e pesada. Diz-se que todos os rádios da cidade sofreram interferências estranhas, que soavam aos homens como gritos de dor mas que pareciam uma risada para as mulheres. Aquele dia esposas riram de maridos que chegavam em casa de rosto lívido e olhos arregalados, certos de que tinham visto uma aparição macabra na rua. Vultos eram vistos nos cantos das salas, atrás de portas, escondidos em esquinas. Durante um dia e uma noite homem nenhum foi capaz de encostar em qualquer mulher – jovem, velha, adulta ou criança.

Desde então todo ano bissexto, 29 de fevereiro, nada acontece a mulher alguma. Todos os homens tem pesadelos. Todas as mulheres dormem felizes.

Escreve

“Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, “apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo”. Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a “função social” , nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de autoexorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te.”

Caio Fernando Abreu – Morangos mofados

Universo Desconstruído #02 – [Coletânea]

Nenhum ser vivo, alienígena ou humano, foi ferido na confecção desta coletânea

“Por uma Ficção Científica com mais diversidade, que não seja machista, racista e homofóbica. Que o gênero mantenha sua pluralidade e sua visão de um mundo melhor.”

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A coletânea do Universo Desconstruído é uma delícia. Eu já tinha lido a primeira e fiquei sabendo que a segunda saiu no fim do ano passado, finalmente consegui ler. Universo Desconstruído é uma coletânea de contos que pode ser baixada gratuitamente (yay!) organizada por Lady Sybylla e Aline Valek, cuja proposta é dar lugar a contos com mais diversidade e menos preconceitos – de gênero, raça ou o que quer que for. Nesta edição são 8 contos e, como qualquer coletânea, tiveram partes que eu gostei mais e outras menos. Falando um pouquinho de cada um dos contos: Continuar lendo

Alimente Heróis com Livros [+ Cultura 2016]

Lembram que eu resolvi esse ano tentar ver quantos eu consigo fazer desse Desafio Mais Cultura? (provavelmente não pq eu nem comentei, mas shhhh)

Bom, finalmente, já quase em março, pude marcar o segundo* item feito da lista! E com uma proposta que parece legal pra caramba. Chama “Alimente Heróis com Livros“.

É assim: o professor e os alunos de uma escola pública na área rural de Goiânia estão fazendo esse financiamento coletivo pra comprar 30 edições de 3 livros: Eu Sou Malala, O Diário de Anne Frank e Ben Carson: O Menino Pobre Que Se Tornou Neurocirurgião De Fama Mundial. A escolha é ótima porque são 3 livros que mostram crianças e adolescentes que passaram por situações bem fodidas e conseguiram sair delas. Bom, no caso da Anne Frank isso é discutível :p mas a história dela é contada e recontada até hoje e ela conseguiu, como boa jornalista que queria ser, fazer um relato da época em que viveu que até hoje é incomparável.

Depois de lidos, os livros ainda vão ser doados pra outra escola, ou seja, o projeto continua :)

Vão lá ajudar no Catarse!

* Segundo porque eu nem me toquei mas já vi um filme de animação esse ano – Snoopy, que fui ver com a maninha em janeiro <3 é legal, Puxa vida Charlie Brown

A Amiga Genial [Elena Ferrante]

O hype mais justificado do mundo

Da Amazon:

“O primeiro [livro da Série Napolitana], A amiga genial, é narrado pela personagem Elena Greco e cobre da infância aos 16 anos. As meninas se conhecem em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950. Elena, a menina mais inteligente da turma, tem sua vida transformada quando a família do sapateiro Cerullo chega ao bairro e Raffaella, uma criança magra, mal comportada e selvagem, se torna o centro das atenções. Essa menina, tão diferente de Elena, exerce uma atração irresistível sobre ela.”

(meu deus que blurb imenso que esse livro tem, não vou copiar tudo não)

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Foto de Mario Cattaneo

 

Olha, eu demorei um bocado pra começar a ler a Série Napolitana. Não foi por falta de aviso da Anica e da Taize de que a série era muito boa. Não foi falta de hype em tudo quanto é artigo sobre “melhores livros dos últimos anos” que eu lia. Na verdade acho que a demora até foi um pouco por causa disso tudo, eu estava desconfiando muito de toda essa falação. Mas a verdade é que a Anica quase sempre funciona comigo pra indicações, eu tinha lá o crédito no Audible (ando apaixonada por audiobooks) e, bom, vamos lá ver qual é a dessa misteriosa Elena Ferrante então.

E meus amigos, que livro. Continuar lendo