Sobre a vida depois do desastre

A única fonte de luz do quarto é uma vela já além da metade. Os dois se olham sob a luz dançante, que amarela suas peles enquanto mostra vales e cria sombras nos rostos tão próximos. Eles estão no quarto há horas.

Ele estica o braço, ela encosta a cabeça no espaço do ombro esquerdo. Ela não cansa de se surpreender com o ajuste perfeito da cabeça dela nos braços dele. Ela dá um looooongo suspiro, seu corpo todo levantado pelos pulmões, segurando o ar, e então soltando tudo de uma vez como quem solta o peso do mundo. Ela fecha os olhos.

Ele a observa, silencioso, por alguns minutos. Então, com a mão livre, ele começa a fazer carinho nos longos cabelos dela, que se espalham como uma cortina negra.

Ela abre os olhos.

– Desculpa, te acordei?

– Não, eu não tava dormindo.

Ele sorri.

– Claro que tava. Você sempre apaga em dois minutos.

– Hhhhmmmmm – ela enfia a cara no ombro novamente enquanto esconde uma careta. Ele ri.

– Vai, o que foi?

– Não quero dormir hoje.

– Por que?

– Porque essa é minha última vela.

– … ah

– Tsc. Eu não queria te falar. Agora você vai ficar assim…

Ele olha para cima, os olhos sem estarem exatamente fixos em nada, e o silêncio os envolve novamente. A luz continua fazendo sombras dançarem na parede enquanto, na realidade, nada se move.

– Não tem problema – ele finalmente diz.

Um nó aperta na garganta dela e ela se esforça para desfazê-lo.

– Não tem mesmo como fazer mais velas?

– Você sabe que não – ela diz, com o tom de voz cansado de quem já teve essa conversa mil vezes, e pelo menos a metade das vezes a discussão foi dela com ela mesma. – Eu não conseguiria nem metade das coisas necessárias. A primeira vez já foi uma sorte imensa.

– Eu sei, eu sei – ele tenta parecer calmo e volta a passar as mãos no cabelo dela, num lento cafuné – Que merda.

Ela ri, finalmente. A tensão do quarto diminui um pouco.

– Mas sabe – continua ela, que deita de lado, ainda sorrindo – essas noites sempre foram minhas preferidas.

– Também, né, a gente só dá certo assim. Sozinhos, durante a noite, ignorando o resto do mundo.

Ela sabe que isso é verdade, mas o fato não faz o amor que sente diminuir em seus olhos. Infortúnios, ela pensa. Alguns caminhos são muito diferentes e não há nada a se fazer a respeito disso. É possível ter todo amor do mundo, mas os dois sabiam bem que amor, só, não é suficiente. É preciso ter toda uma outra conjunção de fatores. Que eles não tinham.
– Uma noite eterna só pra nós dois. Vou pensar nisso da próxima vez.

– Mulher mas não vai ter vela suficiente no mundo – agora é ele que ri.

Um sorriso e uma ideia parecem passar pela mente dele.

– A vela vai até de manhã, como sempre?

– Até de manhã

– Ceeeerto…

Ele olha com um olhar jovem, que ela não vê há tempos, que de repente a joga anos e anos para trás, quando toda aquela bagunça começou e eles não passavam de crianças crescidas com hormônios demais.

– Hum, posso saber o que você tem em mente? – ela diz, com a cara de quem sabe muito bem o que ele tem em mente e que aprova a ideia.

– Bom… – ele escorrega a mão pelo quadril nu dela, um toque cheio de calor, cheio de carinho – Ainda tem um tempinho até o amanhecer.

Horas depois eles estão deitados, ele abraçando ela, enquanto a vela queima em seus últimos segundos. Em instantes a luz do quarto vai se apagar e começar a ser substituída pela luz da manhã, implacável, entrando pela janela.

Ele começa a se tornar insubstancial. No momento em que a chama se apaga ela ouve a voz dele ao longe, dizendo “boa noite, meu anjo”. Depois disso, nada. Não há sombras na parede para refletir os soluços descontrolados do corpo dela.