A Lenda da Bela Carolina

He told me that when a very beautiful girl was born in a family that had not been noted for good looks, her beauty was thought to have come from the Sidhe, and to bring misfortune with it. He went over the names of several beautiful girls that he had known, and said that beauty had never brought happiness to anybody. It was a thing, he said, to be proud of and afraid of.

The Celtic Twilight: Faerie and Folklore (W. B. Yeats)

Muito se falava e pouco se sabia sobre o assassinato da Bela Carolina.

O que se sabia: Carolina tinha 17 anos quando, no dia 29 de fevereiro, foi encontrada morta num terreno baldio próximo ao clube municipal. O caso teve inúmeros suspeitos, mas nenhum foi formalmente indiciado e o caso foi fechado, sem solução.

O que se falava: que a menina Carolina era tão bonita, mas tão bonita, que havia enlouquecido um dos homens da cidade. Alguém não aceitou não ter aquela beleza para si – ela negava os avanços de todos os homens, que sempre eram feitos com mais ou menos força, com mais ou menos insistência. Diziam que homens e mulheres a viam como alguém de beleza e status sobrenatural, o que causava medo nas mulheres e luxúria nos homens. Diziam que ela só tinha uma amiga. Diziam que ela e essa amiga se beijavam.

Naquele sábado bissexto foi feita uma festa especial. A ideia da festa era fazer uma grande comemoração, um aniversário comunitário a todos os nascidos em 29/02 com muita música e dança, organizada pelo clube municipal para arrecadar dinheiro pra uma causa qualquer. A causa do carro novo de um dos dirigentes, provavelmente. Isso não importa. O que importa é que a festa foi feita.

Para aquela festa Carolina ousou se arrumar, usar o vestido novo que não usava nunca, passar um batom vermelho que combinava com as unhas curtas e recém feitas. Ela era chamada de Bela Carolina desde os 11 anos, mas a atenção a deixava desconfortável e ela evitava se arrumar para ver se a simplicidade a faria ser esquecida. Mas parecia que seus esforços tinham o efeito contrário, e todos se espantavam sobre como, para ela, era tão fácil ser linda. Só que ela tinha decidido que aquele dia seria diferente. Era um dia especial: aniversário da Gabriela. O primeiro que elas realmente passariam juntas, pois nos outros anos sempre comemoravam antes ou depois. Elas também tinham resolvido, juntas, que hoje não iriam se importar com a sociedade pequena daquela cidade e que dançariam juntas, comemorariam juntas, seriam em público o que eram às escondidas. O dia extra de fevereiro seria pra elas um dia especial no qual poderiam ser quem eram. As duas estavam felicíssimas. Achavam que, por um dia mágico, ninguém poderia tocá-las.

Elas dançaram na festa como quem nunca tinha dançado antes, as duas saias esvoaçando juntas pelo salão e criando uma redoma que as protegia dos olhares tortos que vinham por todos os lados. Garotos tentavam chamar Carolina pra dançar e ela negava com cara de desprezo. Um deles chegou a puxar Gabriela pelo braço pra ela abrir caminho, mas Carolina gritou “sai!” e puxou a outra menina para perto de si. Quando as músicas lentas começaram a tocar elas dançaram juntinhas, Carolina cantando baixinho “parabéns pra você” no ouvido de Gabriela. Não se desgrudaram o dia inteiro.

Mas se desgrudaram na saída. Não tinham opção, Gabriela ia embora com as primas e Carolina teria que ficar para esperar a carona do pai. Foi a última vez que elas se viram.

A partir daí a história se confunde: ninguém admitiu ter visto Carolina depois de sua despedida com um beijo na bochecha de Gabriela. Apesar de toda a metade jovem da cidade estar presente naquela festa, ninguém podia se lembrar de ter visto Carolina acompanhada de alguém, indo para algum lugar. O pai alegava que Carolina não estava no local e na hora combinada, mas a esposa dizia que ele só chegou em casa com essa notícia horas depois. Os garotos conhecidos por irem atrás da menina com mais insistência disseram que não estavam lá, ou que tinham saído mais cedo, ou que estavam com outras pessoas. O próprio delegado, um homem velho, de cheiro acre e que fazia barulho enquanto mastigava, não parecia muito disposto a pressionar os suspeitos depois de um simples “não, senhor, não vi nada”. Todos já tinham visto o delegado seguir Carolina de carro, nos fins de tarde, insistindo em dar a ela uma carona para casa.

As mulheres da cidade ficaram aterrorizadas. Olhavam para todos os homens e garotos com desconfiança, e os homens olhavam entre si com um silêncio desconfortável. Entre as mulheres corria à boca miúda que todos eles sabiam quem foi, e que tinham concordado em manter silêncio. Nem todas acreditavam nessa história, mas nem todas tinham coragem de negar. Gabriela foi enviada pela família a um colégio interno em outro estado, de onde só voltava por alguns dias, no Natal, proibida de sair de casa.

A vida continuou, como sempre continua, mas a Bela Carolina não foi esquecida. Por motivos diferentes. Os homens continuaram a sonhar com sua beleza, as mulheres continuaram a ter pesadelos com seu sofrimento. Até o próximo 29 de fevereiro, quatro anos depois.

Diz-se que naquele dia a cidade amanheceu nublada, cinza e pesada. Diz-se que todos os rádios da cidade sofreram interferências estranhas, que soavam aos homens como gritos de dor mas que pareciam uma risada para as mulheres. Aquele dia esposas riram de maridos que chegavam em casa de rosto lívido e olhos arregalados, certos de que tinham visto uma aparição macabra na rua. Vultos eram vistos nos cantos das salas, atrás de portas, escondidos em esquinas. Durante um dia e uma noite homem nenhum foi capaz de encostar em qualquer mulher – jovem, velha, adulta ou criança.

Desde então todo ano bissexto, 29 de fevereiro, nada acontece a mulher alguma. Todos os homens tem pesadelos. Todas as mulheres dormem felizes.

Universo Desconstruído #02 – [Coletânea]

Nenhum ser vivo, alienígena ou humano, foi ferido na confecção desta coletânea

“Por uma Ficção Científica com mais diversidade, que não seja machista, racista e homofóbica. Que o gênero mantenha sua pluralidade e sua visão de um mundo melhor.”

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A coletânea do Universo Desconstruído é uma delícia. Eu já tinha lido a primeira e fiquei sabendo que a segunda saiu no fim do ano passado, finalmente consegui ler. Universo Desconstruído é uma coletânea de contos que pode ser baixada gratuitamente (yay!) organizada por Lady Sybylla e Aline Valek, cuja proposta é dar lugar a contos com mais diversidade e menos preconceitos – de gênero, raça ou o que quer que for. Nesta edição são 8 contos e, como qualquer coletânea, tiveram partes que eu gostei mais e outras menos. Falando um pouquinho de cada um dos contos: Continuar lendo

Prey for scorpions [M. Kirin]

Um bom começo

Falar rapidinho do livro que eu também li rapidinho. Da Amazon:

PREY FOR SCORPIONS (Mercenary Hearts, Volume 1) is the first part of a serialized cyberpunk novel about a world at the brink of chaos, the lonely soldiers trying to maintain order, and a jaded woman in search of peace.

scorpions

(amei a capa, aliás)

M. Kirin, ou Max, é uma pessoa não binária que eu descobri no tumbrl, com alguém reblogando uma playlist e eu vi e achei legal. Além de playlists pra escrever, Max também tem alguns livros com prompts e faz vídeos no youtube falando sobre escrita e jogos. Entre esses vídeos aliás tem um bem legal, “How to plan your novel“. Mas enfim. Além disso tudo, Max também escreve. E esses dias mandou um tweet falando que o primeiro volume da série de cyberpunk que está escrevendo estava de graça na Amazon temporariamente. Cyberpunk, curtinho, de graça, na minha lista é só sucesso :D

O livro na verdade é o primeiro de uma “serial novel”. Quer dizer que, todo mês, Max está publicando um volume novo. Eu gostei bastante do livro, mas verdade seja dita ele inteiro é uma introdução. Nele nós vemos mais ou menos qual é a desse mundo futurístico, aprendemos sobre os implantes e melhorias corporais e somos apresentados aos personagens principais. Spider é uma mercenária meio perdida no mundo que quer paz mas não sabe o que fazer pra isso. Ela é atacada pela Viper em um trabalho, a Viper vê potencial nela e leva a Scorpion pro grupo de mercenários com complexo de Robin Hood do qual ela faz parte – desculpa, não consegui uma definição melhor pros Horsemen hahaha.

O segundo volume já é Viper e Scorpion saindo pra missões, esse primeiro é a Scorpion sendo aceita/nos apresentando a instituição na qual ela vai trabalhar, a forma como o mundo funciona e quem está dentro dele. E nisso o livro foi muito bom, dá pra ter uma ideia legal do ambiente. Plot mesmo, verdade seja dita, não tem. Mas o ambiente vale a pena, tá de graça até hoje (5/02) e depois volta ao preço normal que também não é lá essas coisas, 0,99 dólares, que dá menos de 4 reais na Amazon ainda. Achei que valeu a pena :)

Prey for Scorpions

Autor: M. Kirin

Editora: Independente